quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Nova coletânea

Aqui fica a capa da última coletânea em que participei, com o pequeno conto  a seguir transcrito:


O tempo pode mudar, mas a amizade deve permanecer.


Havia duas crianças que eram muito amigas, podemos dizer que eram os melhores amigos que qualquer pessoa poderia ter.

Cresceram juntos e tudo corria bem, pois viviam à margem do mundo, numa pequena aldeia perdida na floresta, onde os preconceitos não existiam. Viviam o dia a dia, sem vaidades nem egoísmos. Um era branco e o outro era negro, mas tirando a cor da pele, em tudo se assemelhavam, já que tinham os mesmos gostos e partilhavam das mesmas ideias.

Certo dia, por uma ninharia qualquer, os dois amigos zangaram-se. O rapaz branco explicava:

_Toda a gente sabe que o frio é causado pela passagem da lua cheia à lua nova!

_ Onde ouviste tal estupidez! Toda a gente sabe que o frio é causado pela passagem da lua nova à lua cheia!_ retorquiu o rapaz negro.

A discussão estava cada vez mais acesa e ninguém os conseguia convencer do contrário. Começaram por virar as costas um ao outro, afastando-se um do outro dia após dia. Chegaram ao ponto de começarem a insultar-se e foi então que, sabendo que essa conduta não era apropriada, mas não querendo dar o braço a torcer, decidiram consultar o sábio da aldeia para ver qual dos dois tinha razão.

Abeiraram-se respeitosamente do sábio e expuseram a sua questão.

O sábio refletiu durante algum tempo e por fim respondeu:

_ O frio pode surgir em qualquer fase da lua, seja na passagem da lua nova para a lua cheia ou na da lua cheia para a lua nova. Na verdade, o frio é trazido pelo vento quando este sopra do norte, de leste ou de oeste. Assim sendo, ambos têm razão e nenhum dos dois ganhou ou perdeu. O mais importante na vida é de nos mantermos unidos, procurando viver cada dia sem discussões ou zangas. O tempo pode mudar, mas a amizade deve permanecer.

Após ouvir as sapientíssimas palavras, os dois amigos despediram-se do sábio envergonhados  e ambos juraram que, a partir desse dia, nada mais se iria intrometer entre a amizade que os unia.


sábado, 24 de setembro de 2016

Amor de irmãos

Fica aqui o conto publicado na coletânea «Arte pela escrita oito»:


Amor de irmãos

Era uma vez um homem e uma mulher, que viviam com os seus dois filhos, uma menina e um menino, numa pequena casa no meio de nenhures.

Recentemente, a sua filha havia mudado. A criança brilhante e alegre tornou-se taciturna, retraída. Ela já não falava, não ria, não se sentia feliz ao pentear o seu longo cabelo louro, que quando emaranhado cobria o seu lindo rosto e escondia os seus belos olhos azuis. Isto entristecia os seus pais, que não conseguiam encontrar um remédio para fazê-la voltar a  sorrir e a falar novamente.

Certa manhã, eles encontraram um velho livro abandonado à porta da casa, mas que estava fechado com um cadeado. Passaram os sete dias seguintes a tentar abri-lo, mas sempre em vão. Até que no sétimo dia encontraram uma pequena chave em cima da mesa da cozinha.

O filho logo exclamou:

- Deve ser a chave do livro velho!

Ele correu imediatamente com a chave na mão para abrir o cadeado do livro e este, como por magia, abriu-se numa página onde se podia ler: ". Quando uma pessoa perde o sorriso e a alegria de viver, apenas uma jornada para além dos mares a pode curar"

O irmão decide levar a sua irmã para o mar. Mas primeiro tinha que atravessar um deserto. Provisões e garrafas de água são embalados e armazenadas no jipe da família.

Uma tempestade de areia obriga-os a parar. Quando o céu volta a ficar claro, eles não reconhecem o caminho. Nem um único arbusto, nem um único oásis no horizonte. Eles estão perdidos! Os alimentos e a água começam a escassear. De seguida, o carro fica sem combustível.

Em pânico, o irmão decide deixar a sua irmã muito enfraquecida sob uma lona, fora do carro, para ir a pé pedir ajuda. Areia, nada mais além de areia, é o que o rodeia. Um grande medo apodera-se dele e um turbilhão de lágrimas teima em se abeirar dos seus olhos. De repente, ele julga avistar um vulto escuro a mover-se na crista de uma duna. "Uma miragem", pensa ele. Mas logo surge um homem com uns olhos negros ao seu lado, usando um turbante azul.

- Por favor, ajude-me. Preciso de água e comida para a minha irmã que está doente._ diz o jovem rapaz.

- Eu posso conseguir isso _ respondeu o homem_ mas de seguida, como forma de pagamento, terá de enfrentar o terrível Mestre do deserto.

O irmão tem pouca escolha, por isso concorda.

Imediatamente uma fonte brota a seus pés, formando uma lagoa com alguns peixes nadando na água clara. Espantado o rapaz vira-se para agradecer, mas já está sozinho: o misterioso homem tinha desaparecido.

Ele sacia a sua sede, enche uma cabaça e parte para junto de sua irmã.

Mas eis que no caminho de regresso surge à sua frente um esplêndido leão. "Eu sou o mestre do deserto. Como ousa beber da minha fonte?" Aterrorizado, o jovem balbucia:

_ Desculpa grande Mestre, apenas quero saciar a sede de minha irmã que está doente. Faço tudo o que pedires, mas deixa-me salvá-la.

_ O que podes tu fazer por mim?_ retorquiu o magnífico animal.

Nisto o rapaz enchendo-se de coragem declara:

_Posso ser o teu fiel amigo e a alegria da minha irmã pode animar os teus dias. Juntos podemos tornar os teus dias melhores.

O leão tinha pouco a perder e a coragem do jovem tinha-lhe tocado o coração. Decidiu deixá-lo partir e segui-lo de longe.

Ao chegar perto da irmã, o jovem rapaz estendeu-lhe o cantil. A jovem bebeu, mas algumas gotas caíram na areia. De repente, uma lagoa começa a formar-se e novamente peixes surgem nas águas claras. Estupefacta, a menina olha para a água, senta-se na margem e apanha uma concha. Ela encosta-a ao seu ouvido e um sorriso ilumina o seu rosto.

_Olha_ diz ela para o irmão_ ouvir esta música é maravilhosa!

 Ela ri, canta, dança, corre na praia. Uma alegria invade o jovem rapaz e ao longe o leão presencia a cena. Nada mais belo do que o amor de irmãos!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Reconhecimento público como escritora

Reconhecimento público pelo Agrupamento de Escolas Padre José Augusto da Fonseca e pela Câmara Municipal de Aguiar da Beira





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Conto: "O teu conhecimento é a tua riqueza."

Aqui fica a última coletânea em que participei com o conto "O teu conhecimento é a tua riqueza".



Transcrevo, aqui, o  conto.

    Numa pequena aldeia, vivia um jovem homem muito pobre, mas tão pobre que nada mais tinha senão os olhos para ver, as mãos para colher e as pernas para caminhar.
    Farto de viver nessa miséria, decidiu consultar o Sábio da região para ver se mudava a sua sorte. Este, após ouvir os lamentos do homem, disse-lhe:
    _ Procura o tesouro e tornar-te-ás rico.
   O Homem saiu cabisbaixo da casa do sábio. Não sabia onde procurar o tesouro. As palavras do sábio tinham sido bastante enigmáticas. Todavia, como nada tinha, decidiu partir para encontrar o tesouro.
    Na sua busca, atravessou todos os países. Percorreu  todos os continentes. Atravessou todos os mares e oceanos. Conheceu todos os povos e tribos. Conviveu com gente de todas as raças e idades, com as mais variadas crenças e ideias. Aprendeu tudo o que pôde sobre as culturas por onde passou. As suas mãos aprenderam os mais diversos ofícios e a sua língua saboreou os mais diversos alimentos. Dia após dia, os seus olhos observaram todos os gestos, todos os afetos partilhados entre os humanos, mas nunca encontraram o tesouro.
     Passados alguns anos, regressou à sua aldeia de mãos a abanar. Triste com a sua sorte, dirigiu-se, novamente, a casa do Sábio.
     Assim que transpôs a soleira da porta, o Sábio perguntou-lhe:
     _Que te traz por cá, novamente?
    _Disseste-me que se encontrasse o tesouro, tornar-me-ia rico. Percorri o mundo inteiro e eis-me aqui, de novo, sem nada_ respondeu-lhe o homem triste.
    _Olha bem para dentro de ti_ retorquiu-lhe o sábio_ Repara como agora és rico. Todas as tuas viagens, todas as tuas descobertas, todos os teus encontros, todos os afetos partilhados…  o teu  conhecimento  é o teu tesouro.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Divulgação no Palácio Rosa Mota, Porto




Obrigada ao jornal Caruspinus pela divulgação da minha participação na XX Feira do Livro em Saldo, no Porto e à Editora Mosaico de Palavras pela organização.

Evento Livros em Saldo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dia fatal


Aqui está o último conto que publiquei.

Dia fatal

*
Ninguém esperava tão trágico acontecimento.
A pequena aldeia de Fontearcadinha acordara sob um manto de geada, tão característico nas manhãs de Novembro. Os seus habitantes efectuavam rotineiramente as tarefas que lhes estavam atribuídas. Nada parecia prever que uma má notícia fosse atingir brutal e profundamente a aldeia.
D. Fernanda já estava saindo com o seu rebanho de cabras e ovelhas.
Como de costume, levantara-se às cinco e acendera o lume. Todos os dias realizava mecanicamente as mesmas tarefas, à mesma hora: acordava antes do galo cantar, preparava-se, bebia uma chávena de chá, enfiava um pedaço de pão no bolso do casaco para mordiscar pelo caminho e dirigia-se à loja dos animais. Aí, verificava, meticulosamente, se todos os animais estavam de saúde, prestando redobrada atenção às prenhas.
De repente, sentiu um frio pelas costas acima.
Ao longe, alvoraçada, sua irmã corria a chorar ao seu encontro.
Que desgraça tinha acontecido?! Lúcia não era mulher para tais algazarras! Algo de muito mau se passava.


*

Acordara com o canto do galo. Aquele som estridente recordava-lhe a sua terra natal. A esta hora a sua mãe devia estar a levantar-se. Que disparate! Em Portugal já eram oito horas. Apesar de já estar há um ano em Moçambique o desfasamento horário ainda lhe pregava algumas partidas. Este atraso de duas horas ainda contribuía mais para o distanciamento que parecia querer empurrá-la para longe da sua família. Como gostava de ouvir a voz da sua mãe... o seu jeito atabalhoado de querer fazer tudo sozinha ...de andar com ela pelo campo...
Aqui, na Missão de Fonte Boa, apesar de todo o trabalho que tinha e de sentir que as pessoas precisavam dela, as saudades apertavam. Sabia que não podia deixar o seu empreendimento, ainda faltava muito para que o orfanato ficasse pronto.
Tinha decidido enveredar pela via missionária, apesar de saber que esta decisão não agradara à sua família. Tentava, agora, recordar os motivos que a tinham empurrado para tão tortuoso, embora gratificante, caminho.
Tinha passado a sua infância na aldeia, conjugando a vida escolar com a lida do campo. Sempre gostara de trabalhar na terra, mas sabia que a agricultura não lhe traria grandes rendimentos.
 Decidira, então, tirar um curso superior. Sempre fora uma aluna aplicada, o que acabou por lhe garantir a entrada na Faculdade de Direito em Coimbra. Desde cedo se apercebeu que a vida era muito mais do que um curso. Procurou algum conforto em comunidades cristãs.

*

Lembrava-se de uma história que tinha lido. Todavia, não se conseguia lembrar com clareza do seu autor. Teria sido do Paulo Coelho? Também isso não lhe pareceu importante. Queria apenas sentir que, tal como a jovem nuvem, a sua vida tinha tido algum significado nesta vida terrena. Agonizando, tentou reconstituir a história:
«Uma jovem nuvem nasceu no meio de uma grande tempestade no Mar Mediterrâneo. Mas não teve sequer tempo de crescer, pois um vento forte empurrou todas as nuvens em direcção à África.
Assim que chegaram ao continente, o clima mudou: um sol generoso brilhava no céu e, em baixo, estendia-se a areia dourada do deserto do Saara.
O vento continuou a empurrar as nuvens em direcção às florestas do sul, já que no deserto quase não chovia.
Entretanto, assim como acontece com os jovens humanos, também acontece com as jovens nuvens _ ela resolveu separar-se dos seus pais e amigos para conhecer o mundo.
_ O que estás a fazer? _ reclamou o vento _ O deserto é todo igual! Volta para a formação e vamos até ao centro da África, onde existem montanhas e árvores deslumbrantes!
Mas a jovem nuvem, rebelde por natureza, não obedeceu. Pouco a pouco foi baixando de altitude, até conseguir planar numa brisa suave, generosa, perto das areias douradas.
Depois de muito passear, reparou que uma das dunas estava a sorrir para ela. Viu que ela também era jovem, recém-formada pelo vento que acabara de passar. Nesse mesmo momento, apaixonou-se pela sua cabeleira dourada.
_ Bom dia _ disse ela  _ Como é viver aí em baixo?
_ Tenho a companhia das dunas, do sol, do vento e das caravanas que, de vez em quando, vão passando por aqui. Ás vezes faz muito calor, mas dá para aguentar. E como é viver aí em cima?
_ Também existe o vento e o sol, mas a vantagem é que posso passear pelo céu e conhecer muita coisa.
_ Para mim a vida é curta. Quando o vento voltar das florestas irei desaparecer _ disse a duna.
_ E isso entristece-te?
_ Dá-me a impressão de que não sirvo para nada.
_ Eu também sinto o mesmo. Assim que um novo vento passar irei para o sul e transformar-me-ei em chuva. Entretanto esse é o meu destino.
A duna hesitou um pouco, mas terminou dizendo:
_ Sabes, aqui no deserto nós chamamos a chuva de Paraíso.
_ Eu não sabia que podia transformar-me em algo tão importante _ disse a nuvem orgulhosa.
_ Já ouvi várias lendas contadas pelas velhas dunas que dizem que após a chuva nós ficamos cobertas de ervas e flores. Mas eu nunca saberei o que isso é porque no deserto chove raramente.
Foi a vez da nuvem ficar hesitante. Mas, logo em seguida, voltou a mostrar o seu lindo sorriso:
_ Se quiseres, eu posso cobrir-te de chuva. Embora tenha acabado de chegar, estou apaixonada por ti e gostaria de ficar aqui para sempre.
_ Quanto te vi pela primeira vez no céu, também me enamorei _ disse a duna _ mas se transformares a tua linda cabeleira branca em chuva, acabarás morrendo.
_ O AMOR nunca morre. Ele transforma-se. Quero muito mostrar-te o Paraíso _ disse a nuvem.
Começou a acariciar a duna com pequenas gotas...
E assim permaneceram juntos por muito tempo, até que o arco-íris apareceu.
No dia seguinte, a pequena duna estava coberta de flores.
Outras nuvens, ao passarem em direcção à África, achavam que ali estava parte da floresta que procuravam e despejavam mais água.
Vinte anos depois, a duna tinha se transformado num oásis que refrescava os viajantes com a sombra das suas árvores.
Tudo porque, um dia, uma nuvem apaixonada não tivera medo de dar a sua vida por causa do AMOR.»


Com isto fechou os olhos e abraçou a eternidade.